
Existem pessoas que se furtam de viver a vida por medo de sofrer, sem perceberem que ao abdicarem do sentir estão jogando fora, oferecendo de mão-beijada, o ingrediente especial que faz com que a nossa passagem por este mundo valha a pena. Que faz com que a vida seja mais que uma sucessão de momentos em branco em que, tarde demais, percebemos que poderíamos ter imprimido uma marca pessoal.
Ao olhar para trás, percebemos que as recordações maravilhosas de onde os outros parecem retirar o calor e a energia que os move, simplesmente não existem para nós. Uma das minhas canções preferidas diz, “la vida es una puerta donde no te cobran por la entrada e el alma es el tickete que al vivir te rasgan cuando pagas” (me perdoem o espanhol, não é o meu forte). Sempre gostei desta parte, particularmente pela verdade que o autor emprestou às palavras.
Nada nesta vida se consegue sem sofrimento, sem esforço. E é precisamente porque os obstáculos nos surgem ao longo do caminho que, quando enfim atingimos o nosso objetivo final, quando realizamos os nossos sonhos, a vida nos empresta aquele gostinho a especial do qual a dificuldade nos torna merecedores.
Por isso me arrependo de, durante grande parte da minha vida, ter-me remetido à passividade. Não é que não sentisse, não é isso, mas sempre tive medo de arriscar, de me magoar. E no meio da minha insegurança, até da minha insensatez, não me dei conta de que estava a abdicar antecipadamente do meu direito a ganhar.
E que ao negar-me a oportunidade de tentar também estava a remeter-me à derrota. Pior, nunca saberei se, tendo escolhido o caminho certo nas encruzilhadas da vida em que me encolhi enquanto a vida passava do lado de fora da minha janela, não seria hoje mais feliz, não me sentiria mais realizada.
Para quantas vitórias virei as costas, quantos sonhos, que ganhei em troca da esperança, desperdicei? Mas agora sei que não é isso que quero, nunca mais. Quero preencher todas as páginas que ainda me restam neste caderno que é a minha vida, em letra bem apertadinha para fazer render o espaço, para recuperar o tempo perdido.
Mas desta vez deixo o lápis e a borracha em casa, o tempo dos rascunhos acabou. Agora escrevo as linhas com tinta permanente...



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